8. ARTES E ESPETCULOS 13.2.13

1. CINEMA  UMA NOITE SEM LUA
2. SHOWBIZ  EMPREENDEDOR DO ZIRIGUIDUM
3. LIVROS  BOA MSICA A SERVIO DO MAL
4. LIVROS  GUERREIRO DA ARTE
5. VEJA RECOMENDA
6. OS LIVROS MAIS VENDIDOS
7. ROBERTO POMPEU DE TOLEDO  VELHOS CARNAVAIS

1. CINEMA  UMA NOITE SEM LUA
No brilhante filme-reportagem A Hora Mais Escura, da diretora Kathryn Bigelow, o assassinato de Osama bin Laden  precedido da tortura de suspeitos de terrorismo e seguido pela insegurana ainda permanente   uma vitria que no autoriza catarse nem alvio.
ISABELA BOSCOV

	Primeiro vem a tortura. Numa instalao secreta da CIA no Paquisto, o agente Dan (Jason Clarke) entra e sai de um barraco escaldante, dia aps dia, para submeter o prisioneiro Ammar (Reda Kateb), que realizava operaes financeiras para a Al Qaeda, a sesses de afogamento simulado, pau de arara ou confinamento em um caixote. s vezes Dan pe uma coleira em Ammar e o obriga a andar de quatro. Outras vezes s bate papo, ou oferece um suco, uma refeio.  Tudo  feito com crueldade mas sem hostilidade, e a fria parece mais ensaiada que autntica: Dan no est improvisando, mas seguindo um clculo sobre o qual a melhor forma de fazer uma sesso escalar, quando gritar ou falar baixo, quando ameaar ou confortar. A certa altura, o agente argumenta com o prisioneiro que todo mundo quebra;  biolgico: do seu ponto de vista, ao resistir a confessar Ammar est obstruindo a concluso de uma tarefa desagradvel para ambos. Em A Hora Mais Escura (Zero Dark Thirty, estados Unidos, 2012), que estreia nesta sexta-feira no pas, a ateno que a diretora Kathryn Bigelow ds s mincias desses procedimentos produz uma sensao de desalinhamento existencial: A impessoalidade e o profissionalismo da tortura multiplicam a nveis intolerveis a degradao que ela faz recair sobre torturado e torturador. E, ao mesmo tempo, funcionam para os envolvidos nessa indignidade como uma forma de racionaliz-la  veja-se a repugnncia contida pela determinao com que outra agente da CIA, Maya (Jessica Chastain) observa o trabalho de Dan.
     Maya, uma novata recrutada pela CIA ainda no 2 grau,  baseada em uma agente real cuja identidade permanece em sigilo.  ela quem conduz as duas horas restantes deste filme estupendo: o suplcio de Ammar de fato produz um nome  o de Abu Ahmed, que talvez seja o mensageiro de que Osama bin Laden se vale para manter a comunicao com a Al Qaeda. Est-se em 2003, e parte da comunidade de Inteligncia cr que Bin Laden continua escondido em algum lugar perdido, como as cavernas de Tora Bora, no Afeganisto. Maya acha ilgico que ele esteja to inacessvel  sua prpria rede de terror. Alguns de seus superiores concordam com ela, outros no. Durante os oito anos seguintes, a despeito da oposio, Maya perseguir o elusivo Abu Ahmed, em um trabalho de pacincia inimaginvel. Uma foto obscura, uma frase de um depoimento  qual ningum deu importncia, uma pista deslocada que s vezes demora meses, ou anos, para encontrar seu lugar no mosaico que a agente vai montando: no desempenho convicto de Jessica Chastain, a inteligncia associada  obstinao  uma forma toda prpria, e eletrizante, de ao e de autoafirmao.
     A mesma frase valeria para descrever Kathryn Bigelow, a primeira mulher a ganhar o Oscar de direo, em 2010, por Guerra ao Terror. Neste filme feito s de nervos e tendes no h imagem ou rudo suprfluos nem emoo artificialmente realada; a concentrao com que a diretora filma cada cena, com a cmera na mo mas sem agitaes desnecessrias,  retribuda pelo elenco, no qual cada ator ou atriz tem a obrigao de entregar uma verso viva e completa de seu personagem, no importa quo pequeno ele seja. Jennifer Ehle como uma agente que j viu de tudo, Edgar Ramrez como o especialista em vigilncia que roda pelas ruas de Islamabad atrs de Abu Ahmed, Mark Strong como o diretor de diviso da CIA que quer cabeas para cortar, Joel Edgerton como o chefe do time de elite da Marinha, Jason Clarke como o torturador que quer voltar ao trabalho de escritrio: sob a liderana de Kathryn e do roteirista Mark Boal, todos so protagonistas. Ningum est l para enunciar explicaes ou fazer avanar algum ponto da trama (recursos corriqueiros em filmes com tanto enredo a expor), mas para existir como parte indispensvel da complicada engrenagem que, rodando durante todos esses anos, terminou por levar quela casa de trs andares em Abbottabad, cerca de quarenta minutos ao norte da capital paquistanesa, Islamabad. Sobre a qual, na noite sem luar de 1 de maio de 2011,  meia-noite e meia (o jargo militar zero dark thirty do ttulo original), a equipe da Marinha desceu em dois helicpteros e, no espao de 38 minutos, adentrou a fortaleza, matou Osama bin Laden (alm de vrias outras pessoas) e recolheu papis, discos e computadores que, conforme o divulgado at agora, comprovam que o terrorista continuava muito mais ativo do que se suspeitava. Nesta recriao do cerco de Abbottabad, porm, no h estrondo alm da eventual detonao de explosivos para derrubar as portas: a trilha que acompanha tanta tenso  o som individual das cpsulas das balas caindo no cho.
     Com A Hora Mais Escura, Kathryn Bigelow e Mark Boal refinam e elevam dois gneros narrativos distintos. Por um lado, reconstroem com o mximo de compresso o procedural, categoria que se imaginava ter sido levada ao limite pelas sries de TV policiais e forenses  mas que, aqui, ganha um escopo operstico, no detalhe e na abrangncia. De outro lado, saltam do docudrama, que haviam empregado de forma exmia em Guerra ao Terror, para o autntico filme-reportagem. S para dispersar a confuso, A Hora Mais Escura no  uma adaptao de No H Dia Fcil (Paralela), o relato de um dos militares que integraram a operao.  fruto de uma reportagem independente do ex-correspondente de guerra Boal. Ele e Kathryn afirmam que sua reconstruo dos oito anos de eventos retratados no filme foi integralmente colhida em testemunhos de primeira mo. Sustentam tambm que nenhuma agencia governamental vazou para eles informaes no autorizadas, como acusaram alguns parlamentares americanos. Principalmente, negam com zelo peremptrio que seu filme se preste a justificar o escandaloso uso de tortura contra suspeitos de terrorismo durante o governo de George W. Bush: um contingente encabeado por duas comisses do Senado jura que as pistas que desembocaram em Abbottabad no foram obtidas por meio de tortura, mas outro contingente, este integrado por fontes sigilosas e por jornalistas que cobrem de forma sistemtica esse setor, afirma que, sim, vrias informaes essenciais foram arrancadas dos black sites espalhados pelo mundo.
     No deveria ter sido assim, mas foi, estabelece A Hora Mais Escura, com o mal-estar que necessariamente acompanha essa concluso. Kathryn Bigelow pagou pela audcia com a omisso de seu nome na lista de indicados ao Oscar de direo, mas prova que o que diz e o que filma no so coisas diferentes: finda a extraordinria sequncia do cerco  casa de Abbotrabad, ela resolutamente priva a plateia de qualquer catarse ou alvio. No mostra o rosto de Bin Laden, vivo ou morto, no autoriza nenhuma espcie de exultao, nem sequer d a Maya alguma completude. Em seu filme, no obstante a derrota justa e necessria de um inimigo como Bin Laden, esta  de fato uma noite escura, em que o legtimo e o ilegtimo se confundem, a vingana avana sobre a justia e o sentido de moralidade se perde nos corredores dos escritrios at sumir de vez nos barraces das prises clandestinas.


2. SHOWBIZ  EMPREENDEDOR DO ZIRIGUIDUM
Para o perfeccionista e inovador Paulo Barros, da Unidos da Tijuca, Carnaval bom  o que faz a arquibancada tremer.
MARIO MENDES

     Depois de encerrado o desfile da Unidos da Tijuca em 2010  ano em que a escola carioca foi a terceira a se apresentar no desfile do Grupo Especial e acabou vencedora com o enredo  Segredo! , o carnavalesco responsvel pelo espetculo, Paulo Barros, recebeu um cumprimento inusitado. Um folio mais exaltado o agarrou pelo brao e o acusou,  queima-roupa: Voc sabia que acabou com meu Carnaval? Depois desse desfile no preciso ver mais nada. Estou voltando para casa. Arrasado, mas muito feliz. Barros gosta de contar o episdio com o peito estufado e um sorriso de satisfao: Pode ter coisa melhor?, arremata, triunfante. Claro que pode: ser apontado pelos experts em ziriguidum, balacobaco e telecoteco como o maior inovador dos desfiles de escola de samba desde Joosinho Trinta, o lendrio carnavalesco da campeonssima Beija-Flor de Nilpolis. Alis, Barros cresceu em Nilpolis e teve Joosinho como mentor. Portanto, nenhuma semelhana  mera coincidncia.
s vsperas do Carnaval de 2013, Barros, de 50 anos, est aparentemente tranquilo em seu escritrio com ar condicionado geladssimo, no barraco da Unidos da Tijuca, na Cidade do Samba, prximo ao centro do Rio de Janeiro. Aparentemente porque, como ele estabeleceu uma organizao e uma rotina empresariais para o funcionamento das vrias oficinas que preparam o desfile (todo mundo trabalha em horrio comercial entre agosto e janeiro), a escola est praticamente pronta, faltando apenas detalhes nas fantasias e nos adereos e, sobretudo, os ltimos ajustes nos carros alegricos. Grandiosos e elaborados, neste ano eles vo contar o enredo Desceu num Raio  Trovoada! O Deus Thor Pede Passagem para Contar Nessa Viagem a Alemanha Encantada  conciso parece no ser o forte de quem trabalha com Carnaval, em que nada pode sugerir menos do que imenso, arrebatador, apotetico. Fumando um cigarro atrs do outro, Barros est tenso porque o gerador de um dos carros pifou e um tcnico acaba de sugerir uma troca de aparelhos. No quero que troque, quero dois geradores, porque nada pode dar errado!, decreta. Na verdade, nada pode dar errado  para Barros um mantra, que ele entoa  exausto para toda a sua equipe.
     A trajetria de Paulo Barros no Carnaval comeou em 1994, quando assumiu como carnavalesco da Vizinha Faladeira, escola do Grupo B e uma das mais antigas do Rio, que naquele ano ficou com o vice-campeonato. Dez anos depois, ele chegou  Unidos da Tijuca com o enredo O Sonho da Criao e a Criao do Sonho: a Arte da Cincia no Tempo do Impossvel  outra prola de brevidade carnavalesca  e parou a Marqus de Sapuca com o famoso carro alegrico do DNA, descrito na poca em VEJA: Paulo Barros banhou 127 pessoas em vaselina, pintou-as dos ps  cabea em purpurina azul, prendeu-as por um cinto numa pirmide de 7 metros e mandou que se contorcessem em arriscada coreografia. Para o escritor e autoridade no samba Haroldo Costa, esse carro foi a grande contribuio de Barros para uma renovao dos desfiles: Ele apostou na provocao como forma de escapar da mesmice, e seus enredos seguintes comprovaram a tese, opina. Nem todos so to entusiasmados. Diz o carnavalesco histrico Fernando Pamplona, que fez carnavais memorveis como o Chico Rei da Salgueiro: As coisas que ele faz so timas. Para a Bienal de So Paulo. Se h algo que virou marca registrada do carnavalesco, so suas comisses de frente  sempre espetaculosas e espetaculares. As mais famosas foram a do j citado enredo  Segredo!, com bailarinas que trocavam de roupa num piscar de olhos, e a de Esta Noite Levarei Sua Alma, de 2011, na qual zumbis literalmente perdiam a cabea  ambos truques de prestidigitao executados  perfeio. Para desenvolver a comisso deste ano, Barros trabalhou durante oito meses com dois coregrafos e quinze integrantes, tudo sob o maior sigilo: O primeiro que revelar alguma coisa eu mato, brinca. Ex-comissrio de bordo da Varig  na qual trabalhou por dezesseis anos , Barros diz que encara o trabalho de carnavalesco como um cargo numa grande corporao, tanto que hoje costuma dar palestras sobre gesto e motivao de equipes em empresas. O livro que acaba de lanar, Sem Segredo  Estratgia, Motivao e Criatividade (Casa da Palavra: 176 pginas: 39,90 reais),  uma espcie de autoajuda empresarial (e tem um ttulo  que surpresa!  longo, como Barros gosta). O carnavalesco sem tempo para oba-oba, alm disso, est trabalhando na criao de uma escola para formar profissionais no business da avenida.
     Se a Unidos da Tijuca repetir a vitria do ano passado, ser o terceiro ttulo do carnavalesco. Porm, seja qual for o resultado. Barros diz saber exatamente como ser o final do desfile: Empurrando o ltimo carro da escola para acabar tudo rapidinho. Quanto aos rumores de que as escolas adversrias esto igualmente espetacularizando suas comisses de frente, ele garante achar timo: Vamos ver, ganha o Carnaval quem faz a arquibancada tremer. Ento, se nada der errado e o deus Thor ajudar, Paulo Barros pode contar ao menos com uma boa trovoada.


3. LIVROS  BOA MSICA A SERVIO DO MAL
A Orquestra do Reich mostra como a Filarmnica de Berlim se tornou pea de propaganda do regime nazista.

     Criada em 1882 por um grupo de instrumentistas do primeiro escalo, a Filarmnica de Berlim  venerada por sua sonoridade. O chamado som de Berlim foi moldado pelo alemo Wilhelm Furtwngler (1886-1954) e aprimorado por seu sucessor, o austraco Herbert von Karajan (1908-1989):  aveludado, escuro e com presena forte dos contrabaixos. Mas, a despeito de suas inmeras qualidades musicais, a orquestra tem uma mancha em sua biografia. De 1933 a 1945, ela se tornou pea de propaganda do regime nazista. O grupo sinfnico era uma sntese da suposta superioridade ariana, desde a origem e a competncia de
seus integrantes at os compositores que constavam de seu repertrio. A Orquestra do Reich: a Filarmnica de Berlim e o Nacional-Socialismo 1933-1945 (traduo de Rainer Patriota e Nelson Patriota; Perspectiva; 386 pginas: 70 reais), de Misha Aster, mostra que no s a orquestra aceitou esse papel sem oferecer resistncia como muitos de seus instrumentistas foram simpticos ou omissos em relao aos horrores do nazismo.
     A Filarmnica era uma entidade privada e mal tinha dinheiro para se manter. Partiu de Joseph Goebbels, o tenebroso ministro da Propaganda, a ideia de nacionaliz-la, o que a tornou presena frequente em eventos e comcios nazistas. Dos 109 instrumentistas, apenas quatro eram judeus  e eles foram embora  medida que os atos de hostilidade escalavam. Em compensao, vinte berliners integravam o partido nazista. O violinista Hans Woyworth era to dedicado que ensaiava trajando um uniforme da milcia paramilitar. Furtwngler exibiu sempre uma atitude dbia: tinha um bom relacionamento com Goebbels e Hitler, mas nunca se filiou ao partido (j Karajan, seu rival e sucessor, se filiou duas vezes). Lutou pela permanncia dos msicos judeus  nem tanto porque fosse livre de preconceitos, mas principalmente porque eles eram teis  orquestra. E brigou com Goebbels quando este sugeriu que a sinfonia Mathias, o Pintor do compositor Hindemith, casado com uma judia, fosse eliminada do repertrio. No havia muito de humanista na irritao do maestro: ele s no admitia palpites no que iria reger.
     Ao fim da II Guerra, os berliners simpticos ao nazismo foram mandados embora  e ganharam boas colocaes em outras orquestras alems (os quatro judeus, por seu turno, nunca voltaram). Essa conduta reprovvel, de utilizar smbolos de excelncia cultural como instrumento de propaganda de ditaduras, no foi, porm, prerrogativa do nazismo. A mesma estratgia foi adotada pela extinta Unio Sovitica com orquestras, bals e at circos, e o venezuelano Hugo Chvez transformou El Sistema, o programa de incluso social pela msica que revelou o regente Gustavo Dudamel, em fanfarra da sua ditadura bolivariana. A msica em todos esses casos, era boa. O propsito  que era pssimo.
SRGIO MARTINS


4. LIVROS  GUERREIRO DA ARTE
Num ensaio delicioso, Winston Churchill fala dos desafios de um lado seu pouco conhecido: o do pintor diletante.

     Em maio de 1915, ao deixar o comando da Marinha britnica na I Guerra, Winston Churchill (1874-1965) encarou o fantasma que chamava de co negro: a depresso. Sofria de ansiedade extrema sem meios de alivi-la, escreveu. Mas outra entidade  a Musa da Pintura, em suas palavras veio socorr-lo. Em certo domingo, brincando com um kit de arte para crianas, ele descobriu o prazer de lidar com pincis e bisnagas de tinta a leo. Aquela altura, Churchill acumulava experincias como jogador de polo, correspondente de guerra, soldado e homem pblico. O hobby em que se iniciou aps os 40 anos o acompanharia por toda a vida. Misto de ensaio e testemunho autobiogrfico escrito em 1921, Pintar como Passatempo (traduo de Vera Giambastiani; Odisseia Editorial; 74 pginas; 35 reais)  um elogio dos benefcios da atividade para a alma e o intelecto. O livro  curto, mas tem o efeito revigorante de um belo consomm. Churchill usa de sua sagacidade no apenas para defender as virtudes da pintura como vlvula de escape. Oferece, tambm, uma anlise do que torna essa forma de expresso to vital. A prtica lhe ensinou que os grandes artistas comungam de uma qualidade: a audcia. A mesma caracterstica que, dcadas mais tarde, transformaria o orador, memorialista laureado como Nobel de Literatura e lder extraordinrio capaz de conduzir a Inglaterra em sua hora mais escura  a guerra contra a Alemanha nazista num personagem inescapvel da histria.
Quaisquer que sejam as preocupaes do momento ou as ameaas do futuro, to logo a pintura comece a fluir, no haver mais espao para elas na tela mental, diz Churchill. De princpio paralisado diante do quadro em branco, ele acabou superando, com a ajuda da mulher de um conhecido, suas inibies mrbidas. O homem que enfrentou Adolf Hitler no xadrez geopoltico compara o exerccio de domar uma tela  estratgia militar. Pintar um quadro  como travar uma batalha, escreve: h que fazer um mapeamento criterioso do espao a ser preenchido, alm de reservar parte das tropas  leia-se economizar nas tintas e pinceladas  para o momento do ataque triunfal.
     Churchill identifica essa engenhosidade nos renascentistas italianos e em impressionistas franceses como Monet e Czanne. Nas 500 pinturas que produziu, alis, absorveu com competncia a influncia desses ltimos. Sob pseudnimo, chegou a submeter obras suas  prestigiosa Royal Academy of Arts  e passou no teste. Seu apuro tcnico levou um especialista a dizer que, no tivesse centrado sua carreira na poltica, Churchill teria sido um grande artista. Pode at ser. Mas, como um dos artfices do mundo livre, ele pintou uma obra de mestre.

PALETA CELESTIAL
No vou fingir ser imparcial quanto s cores. Regozijo-me com os tons brilhantes, e tenho sincero d pelos pobres amarronzados. Quando eu chegar no cu, pretendo passar uma parte considervel do meu primeiro milho de anos pintando e, assim, ir ao flundo da questo. Mas nesse caso vou exigir uma paleta ainda mais alegre do que a que tenho aqui embaixo. 
Trecho de Pintar como Passatempo, de Winston Churchill

MARCELO MARTHE


5. VEJA RECOMENDA
DISCOS
12/12/12: THE CONCERT FOR SANDY RELIEF, VRIOS INTRPRETES (SONY)
 Em dezembro de 2012, roqueiros de alta patente se apresentaram no Madison Square Garden, em Nova York, com a misso de arrecadar dinheiro para reparar os danos causados pelo furaco Sandy. Este lbum duplo traz alguns momentos do show. Como todo evento beneficente, The Concert for Sandy Relief  irregular: as atuaes constrangedoras ficam a cargo do comediante Adam Sandler, com sua verso satrica de Hallelujah, de Leonard Cohen, e do coxinha Chris Martin, do Coldplay. H, ainda, uma lacuna decepcionante: Paul McCartney e os remanescentes do grupo Nirvana no se renem na indita Cut Me Some Slack  que ser utilizada na trilha sonora do filme do baterista David Grohl. Mas o restante compensa eventuais ausncias e demonstraes de falta de talento.  impossvel no se emocionar com Bruce Springsteen, heri da classe operria americana, em Land of Hope and Dreams e Wrecking Ball  ambas de seu mais recente CD. O guitarrista Eric Clapton ressuscita Got to Get Better in a Little While, cano obscura do perodo em que integrou o supergrupo Derek & Dominos. As participaes de The Who, Roger Waters, Rolling Stones, Billy Joel e Alicia Keys so igualmente empolgantes.

ANOS 60, PERY RIBEIFO (DISCOBERTAS)
 Morto em 2012, aos 74 anos, Pery Ribeiro entrou para a histria por ter sido o primeiro a gravar Garota de Ipanema, de Tom Jobim e Vinicius de Moraes. No  justo, porm, limitar sua biografia a uma nica gravao e muito menos ao fato de ser filho da cantora Dalva de Oliveira e do compositor Herivelto Martins, nomes importantes da msica brasileira. A caixa Anos 60 faz justia ao talento colossal de Ribeiro. So sete discos (sendo que Eu Gosto  da Vida, Pery Ribeiro e Seu Mundo de Canes Romnticas e Pery jamais haviam sido lanados em CD) que mostram um intrprete refinado, com um estilo muito mais prximo do cool jazz americano que dos vocais estoura-peito dos cantores nacionais de bolero. Seu belo timbre e sua dico perfeita, alis, deveriam se tornar matria obrigatria para todos os candidatos a cantor no pas. A classe de Ribeiro tambm se refletia na qualidade do repertrio: ele ia dos compositores da bossa nova (Jobim, Roberto Menescal e Marcos Valle) a Dorival Caymmi (seu Joo Valento, presente no disco em que grava acompanhado de uma orquestra regida por Lyrio Panicali,  to saboroso quanto bolinho de estudante), passando pelo pai, Herivelto. Cinco dos sete lbuns ganharam faixas-bnus.

CINEMA
MONSTROS S.A. 3D (MONSTERS, INC., ESTADOS UNIDOS, 2001/2012. DESDE SEXTA-FEIRA EM CARTAZ NO PAS)
 Se existe algo estritamente proibido em Monstrpolis,  a entrada de crianas. Considerados txicos, esses seres aterrorizantes tm uma nica utilidade: o grito de susto, e sobretudo o choro,  fonte de energia para o mundo dos monstros, captada por um time que entra no quarto da garotada, de noite, por meio de portas mgicas. Por um descuido, entra na maior fbrica de processamento de gritos da cidade a menininha Boo, nome criado por Sullivan, o urso meio ogro de corao mole. No invente um nome porque voc vai se afeioar a ela, avisa o monstrinho Mike, o outro protagonista desta animao da Pixar. E o apego pela menina faz o trio revirar a fbrica com o objetivo de devolver Boo ao mundo humano. Lanado em 2001, Monstros S.A. retorna em uma excelente verso 3D. Ao contrrio de O Rei Leo, que foi transcrito pelo mesmo estdio Disney em 2011 sem tantos efeitos, o resultado aqui  deslumbrante  vide a parte final da perseguio dos heris numa linha de montagem, capaz de fazer a plateia se sentir numa montanha-russa.

O AMANTE DA RAINHA (EN KONGELIG AFFAERE, DINAMARCA/SUCIA/REPBUCA CHECA, 2012. DESDE SEXTA-FEIRA EM CARTAZ NO PAS)
 Coroado antes dos 17 anos, Christian VII da Dinamarca (1749-1808) foi uma daquelas tristes figuras de proa das casas reais europeias  um monarca despreparado e psicologicamente instvel, sempre suscetvel  influncia mais prxima ou insistente. Nos anos 1760, entretanto, a influncia em questo se revelou inesperadamente progressista: vinha do mdico alemo Johann Struensee, que, contratado para cuidar do jovem e talvez meio louco monarca, cuidou mesmo foi do reino  e da rainha, Caroline Mathilde. Adepto de primeira hora das ideias iluministas que irradiavam da Frana para o restante da Europa, Struensee (o sempre confivel Mads Mikkelsen) aboliu na Dinamarca a servido e a censura e promoveu medidas avanadas de sade pblica. No era, porm, nenhum diplomata, e indisps-se feio com a aristocracia com sua mania de no dar a mnima s queixas dela e promulgar leis liberais. Da o gosto com que seus inimigos revelaram o longo caso que ele vinha tendo com a rainha (Alicia Vikander, fraquinha). A recriao desses eventos, dirigida por Nikolaj Arcel e produzida por Lars von Trier,  acadmica, mas muito benfeita. Tem ainda uma grande atuao: a de Mikkel Boe Folsgaard como Christian VII.

LIVRO
MISTRIO-BUFO, DE VLADMIR MAIAKVSKI (TRADUO DE ARLETE CAVALIERE; EDITORA 34; 200 PGINAS; 39 REAIS)
 Vladmir Maiakvski (1893- 1930), o maior poeta da vanguarda russa do incio do sculo XX, pregava que no existe arte revolucionria sem forma revolucionria. Escrita em 1918, como encomenda para celebrar o primeiro ano da Revoluo Russa, a pea Mistrio-Bufo suscitou crticas duras no pas. Em parte, pelo humor debochado, mas sobretudo pela histria: burgueses (chamados de puros) e proletariado (impuros) entram numa arca para reinventar o futuro s vsperas do fim dos tempos. Dois anos depois, Maiakvski reescreveu o texto para abarcar a Guerra Civil Russa (que terminaria em 1921), e alcanou repercusso ainda maior com sua encenao em Moscou.  essa verso que recebe pela primeira vez uma edio brasileira, com traduo direta do russo. Mantida a estrada (a forma), modifiquei partes da paisagem (o contedo), escreveu o poeta sobre a segunda verso. Ningum poderia prever com exatido que montanhas teremos ainda de explodir, ns que percorremos esta estrada, provoca  num pressgio dos tempos de trevas em que a revoluo comunista lanaria seu pas.


6. OS LIVROS MAIS VENDIDOS
FICO
1. Cinquenta Tons de Cinza  E.L. James. INTRNSECA 
2. Cinquenta Tons de Liberdade  E.L. James. INTRNSECA 
3. Cinquenta Tons Mais Escuros  E.L. James. INTRNSECA
4. The Walking Dead  O Caminho para Woodbury  Robert Kirkman e Jay Bonasinga. GALERA RECORD
5. O Lado Bom da Vida  Matthew Quick. INTRNSECA
6. Morte Sbita  J.K. Rowling. NOVA FRONTEIRA 
7. Toda Sua  Sylvia Day. PARALELA 
8. Profundamente Sua  Sylvia Day. PARALELA 
9. A Travessia  William Young. 
10.   Finale  Becca Fitzpatrick. INTRNSECA 

NO FICO
1. Giane  Vida, Arte e Luta  Guilherme Fiuza. PRIMEIRA PESSOA
2. O Livro da Psicologia.  Nigel Benson. GLOBO
3. Carcereiros  Drauzio Varella. COMPANHIA DAS LETRAS 
4. Danuza & Sua Viso de Mundo sem Juzo  Danuza Leo. AGIR
5. Bicampeo do Mundo  Daniel Augusto Jr. BB
6. Dilogos Impossveis  Luis Fernando Verissimo. OBJETIVA 
7. No H Dia Fcil  Mark Owen e Kevin Maurer. PARALELA 
8. A Queda  Diogo Mainardi. RECORD 
9. Nada a Perder  Edir Macedo. PLANETA
10. Cozinha de Estar  Rita  Lobo. PARALELA

AUTOAJUDA E ESOTERISMO
1. As 25 Leis Bblicas do Sucesso  William Douglas e Rubens Teixeira. SEXTANTE
2. Eu No Consigo Emagrecer  Pierre Dukan. BEST SELLER 
3. Casamento Blindado  Renato e Cristiane Cardoso. THOMAS NELSON BRASIL 
4. Desperte o Milionrio que H em Voc  Carlos Wizard Martins. GENTE
5. O Poder do Hbito  Charles Duhigg. OBJETIVA 
6. O Monge e o Executivo  James Hunter. SEXTANTE 
7. Nietzsche para Estressados  Allan Percy. SEXTANTE 
8. Manual dos Jovens Estressados  Augusto Cury. PLANETA
9. A Cincia de Ficar Rico  Wallace Wattles. BEST SELLER
10. Viver com F  Cissa Guimares. CASA DA PALAVRA 


7. ROBERTO POMPEU DE TOLEDO  VELHOS CARNAVAIS
Mas, como enfim a sem-vergonhice est no fundo da natureza humana e como no h lodo que no goste de aparecer ao sol, inventou-se o Carnaval  trs dias librrimos, setenta e duas horas descaradas em que ficou estabelecido que todos os vcios podem andar  solta, cabriolando na praa pblica, de garrafa desarrolhada na mo e perna leve no pincho do canc. (Olavo Bilac, 1890).
O Carnaval do Rio de Janeiro  realmente uma festa de se assistir, de valer a pena aqui chegar-se de fora, mesmo do estrangeiro, a v-lo; porque aqui se reservam as surpresas carnavalescas aos prprios dilettanti das amplssimas e brilhantes feies da alegria humana como se revelam nas festas clssicas do Carnaval italiano. (Raul Pompia, 1892).
[O Carnaval]  velha festa, que est a fazer quarenta anos, se j no os fez. Nasceu um pouco por decreto, para dar cabo do entrudo, costume velho, datado da colnia, e vindo da metrpole. No pensem os rapazes de 22 anos que o entrudo era alguma cousa semelhante s tentativas de ressurreio, empreendidas com bisnagas. Eram tinas dgua, postas na rua ou nos corredores, dentro das quais metiam  fora um cidado todo  chapu, dignidade e botas. (...) Davam-se batalhas porfiadas de casa a casa, entre a rua e as janelas, no contando as bacias dgua despejadas  traio. (Machado de Assis, 1893)
Desde sbado no dormia. Era s folia, folia e mais folia. Aconteceu-me o que aconteceria a um automvel abandonado pelo chofer. Fui esbarrar, sem direo, na doena. Achas feliz a comparao?  minha, inteiramente minha. Os homens so automveis governados pelo motorista Convenincia Social a doze quilmetros a hora. De repente o Carnaval atira a Convenincia no cho, toma o guido e toca a cento e vinte a hora. Quando desaparece, com a velocidade adquirida, os automveis vo por a perdidos e ou estraalham-se ou precisam de conserto. Eu estou na garage. (Paulo Barreto, o Joo do Rio, 1916)
Finalmente foi nesse Carnaval histrico de 1917 que vi as Noites, as Holandesas, as Alsacianas, as Tirolesas, as Fadas, as Castels, as Pierrettes, as Colombinas, as Flores (todas) que danavam decorosamente nas salas do Clube Belo Horizonte. A presena dos apaches e das gigoletes mereceu repulsa geral das senhoras que fiscalizavam a festa sentadas e cochichando punhaladas atrs dos leques. At quando eles entraram no salo, o maestro Ariggo Buzzachi, que dirigia a orquestra (querendo se mostrar conhecedor de Paris e das danas de seu bas-fond), ensaiou ao piano as notas de um java (mi-f-mi-mi-r-r-d-r-mi-d). Mas logo o doutor Penido, que era da diretoria do clube, correu indignado e fez parar a valsa indecente. Ah! tambm l isso  que no... (Pedro Nava, Memrias 3  Cho de Ferro)
O Carnaval  hoje a festa mais estpida do Brasil. Nunca se amontoaram tantos fatos para faz-la assim. Nem no tempo do entrudo, ela podia ser to idiota como  hoje. O que se canta e o que se faz so o suprassumo da mais profunda misria mental. Blocos, ranchos, grupos, cordes disputam-se em indigncia intelectual e entram na folia sem nenhum frescor musical. So guinchos de smios e coaxar de rs, acompanhados de uma barulheira de instrumentos chineses e africanos (Lima Barreto, 1922)
O paulista  um tipo reconhecidamente triste. Sobretudo nos momentos de alegria. D at raiva. O que os jornais chamam regozijo popular  nesta terra a cousa mais fnebre que se pode imaginar. Nem se pode imaginar. O Carnaval  uma prova. O paulista sai  rua para brigar. Brigar porque buliram com as filhas dele. Porque levou uma serpentina no coco. Ou uma bisnagada no olho. Ou um piso no p. (Antnio de Alcntara Machado, 1927)
Sbado de Carnaval. Muita gente no Largo da Concrdia [no bairro paulistano do Brs] noturno e circunspecto. (...) O italianinho sujo veio da Argentina e aos mpetos de Npoles j prefere cantar seu tango com sotaque de gringo. (...) No chorinho de trs mulatos, violo, gaita e ganz, os mais corajosos principiam danando, homem com homem porque as pretas se recusam a danar na rua. Na maioria  portugus com portugus, se pisando. (Mrio de Andrade, 1932)


